10.5.12

Café da manhã vapt-vupt da Laís

Ingredientes:
1 mãe relapsa e egoísta cansada porque chega tarde do trabalho dia sim, dia também

1 criança independente e aberta a novas experiências

1 xícara bem cheia de uma fome de ontem

1 pitada de “não posso esperar nem um minuto porque o mundo está aqui para me servir e só tenho 5 anos”

diversos potinhos na geladeira (feitos com carinho pela mamãe ou pela Danone para vc, ou não....)

1 colherinha. De nada, não, só a colherinha mesmo vc vai precisar dela pra comer seja lá o que for. (o que fica no alto? Usa um banquinho  né, mané? Ou então fica aí, esperando sua mãe rela cansada acordar! Tsc, tsc)

1 pitada de criatividade

Modo de fazer:

Chame pela sua mãe cansada  em voz alta mais ou menos umas dez vezes, até se certificar de que, depois dela pedir chorando pra vc “não... por favor... só mais 5 minutinhos” ela não vai mesmo levantar nos próximos 20 minutos, pegue sua pitada de “não posso esperar nenhum minuto” e parta para a exploração da geladeira. Após fuçar todos os potinhos e declinar do rápido e previsível  Danoninho, misture sua abertura a novas experiências com a pitada de criatividade para imaginar que aquele purê de inhame que a mamãe fez pro seu jantar pode ser um excelente café da manhã, assim mesmo, comido no potinho e gelado (até porque se ela te pega mexendo no micro ondas a coisa pode ficar muito feia pro seu lado)! Pegue sua colherinha e bon apetit! Depois vc ainda pode comer umas uvas de sobremesa, ou aqueles damascos secos da vovó dando sopa ao alcance da sua mão.
Afinal de contas quem é que inventou que café da manhã não pode ter sobremesa, hein? 

Rendimento: 
uma porção ( ou quantas vc quiser já que vc é quem manda mesmo enquanto ela dorme)

3.5.12

Crescendo e aprendendo

Eu tenho uma sorte grande em relação a Laís: ela nunca foi do tipo de criança que a gente não pode piscar que já está fuçando no fogão, brincando com faca ou ficando em pé na mesa de vidro. Eu posso me dar ao “luxo” por exemplo,  de ficar na minha cama fazendo preguiça (sim porque dormir já é pedir demais) em um domingo pela manhã que ela fica lá, placidamente vendo desenho, brincando, desenhando... Isso é claro até a página dois, quando ela começa a ficar entediada e começa batucar em tudo que encontra, com a intenção, nada inconsciente, de acordar a casa inteira.

Levantei tipo uns 40 minutos depois dela. Ela me viu veio correndo se jogar num abraço.  Com os olhinhos brilhando e, toda orgulhosa de si mesma, dispara:
- Mamãe! Adivinha quem fez meu café da manhã?

- Deixa eu ver: seu pai ta dormindo, sua vó também, eu não fui....

- Eu !! Eu que fiz, sozinha!

- Mesmo filha? Que ótimo! E o que vc fez?

- Fiz toddy e sanduíche!

- Ai Jesus! Vc não ligou a sanduicheira né? Vc sabe que não pode, né? Vc sabe que queima!!

“- Nããããooo mamãe, fiz frio mesmo ó!”            

 Disse ela me arrastando pela mão pra mostrar o sanduíche. Estranhei o “volume” do recheio, uma vez que sabia que queijo e presunto não eram itens abundantes na geladeira àquela altura do campeonato.

- Filha, o que vc colocou dentro do pão?

- Minhas torradinhas com manteiga!! Coloquei um pouco de sal temperado também! Tá uma delicia, quer provar?


E aí, alguém servido?

13.4.12

Pensamentos aleatórios: "momento Avestruz"

E daí que minha amiga Ju posta assim no Facebook:
“E vc pega um táxi com o escudo do FLUMINENSE no retrovisor. Seu filho:
- Moço, você sabia que você é um poooouco viadinho?".
- Joãããoooo!!!!!!!!!!!
- Ué, mãe. Mas ele é tricolor também, igual aos outros!”

Isso me fez refletir que todas nós mães passamos por esses “momentos avestruz” na vida.
O meu pior foi o seguinte: como vcs sabem eu moro na roça. A minha estrada tem asfalto no meio, mato de um lado, mato de outro.
Eis que numa linda e ensolarada tarde de verão, saímos eu e a criança para observar bichinhos (besourinhos, micos e tal) na estrada.
Acontece que a minha estrada, é o caminho di-á-rio de um travesti desses que são muito, mas muito travesti mesmo. O layoutinho é o seguinte: magérrima, alta, moreníssima,com um cabelo a La Gal Costa que ela anda  preso em um rabo de cavalo sempre com uma flor bem grande enfeitando. A blusa é sempre pela metade. Barriguinha de borboleta sempre a mostra. Maquiagem sempre carregadíssima a La Amy (yes, yes,yes, essa mesma, a falecida) a qualquer hora do dia. Resumo da ópera: impossível passar despercebida.
E como era impossível não perceber, Laís percebeu, olhou pra mim e disse naquele volume bem baixinho característico na minha família meio baiana-meio italiana: - Mãe, olha que mulher mais esquisita!
Se eu estivesse em um shopping cheio eu tranquilamente ficaria olhando fixamente para uma vitrine e fingindo que desconhecia aquele pequeno ser que, certamente estava me confundindo com a mãe dela,olha que gracinha! Mas não gente, era minha estrada. Lá na roça, com mato de um lado, mato do outro, eu, Laís, o traveco e os bichinhos por testemunha!

Só me restou catar um buraco pra tentar me fazer de avestruz, mas cadê? Nem isso! Nem isso! 
 
Ai que inveja desse carinha!!
 

29.3.12

Os Melecas: II e III.

Vcs lembram quando eu contei do Meleca I? Pra quem não lembra, clica aqui vai, pra poder acompanhar a conversa.
Pois é. Estamos no Meleca III!! Sim, vcs não entenderam mal, eu escrevi Meleca III.
#

Eu, ainda dormindo preparando o café da manhã meu e da criança (sim sou “quase sonâmbula”), quando me chega ela serelepe puxando conversa:
- Mãe, vou te contar uma coisa! Eu to namorando de novo!

Eu, lembrando que o melhor a fazer com esses papos é não dar muita confiança (ou ao menos fingir que não dá):

- É? Você voltou com o Bruno?

- Não!!

- Ah é, vc estava namorando o João Marcelo ( = Meleca II), esqueci....

- “O João Marcelo é muito calminho.” Disse ela, fazendo cara de “não rolou”.

- Sei. Não combinava com a sua “sapequice”.

- “É!” Concordou ela rindo.

- Sim e quem você está namorando então? O Cauã?

- Não!! Adivinha?

- Filha, tem muito menino na sua sala. Facilita a vida de mamãe. Me conta logo.

- Ó: ele é louro, mas não é o Bernardo Carvalho!

- Vc tá namorando o Be Galvão?

- Isso! Como vc adivinhou? (como eu adivinhei: só tem dois louros na turma. Ela disse o que não é. Dãã)

- Mas filha até onde eu sei o Be já tem DUAS namoradas! Suas MELHORES amigas!!! ( sim vcs não leram errado, eu escrevi duas. E minha psicologia de não dar confiança pro assunto foi pro espaço nesse exato momento)

- Mas a Sophia saiu do colégio. E a Maria deixou eu namorar com ele!

- E ela, vai namorar quem?

- “Sei lá ué. Nem me interessa!” E então ela deu de ombros e saiu categórica com sua torrada e o toddy encerrando o assunto.


Ps: pra quem não lembra, clica aqui pra ver porque eu não chamo mais os Melecas de Meleca ( na frente dela, claro! )

;o)

14.3.12

Contos de carnaval


Foliã. “Pero no mucho”.  

O Carnaval lá de casa foi dividido assim:  
- Sábado foi dia de Laís ir pro bailinho comigo (caído, mas ela se divertiu, que é o que importa);
- Domingo foi dia dela ir pra piscina com a avó, enquanto papai e mamãe caiam na folia e  recordavam os velhos tempos de bloco de manhã de tarde e de noite ( ai, ai meus tempos...) ;
- Segunda-feira  de novo dia de Laís, até porque mamãe já não é mais aquela (o que que a gente faz com ela?)  e “num guenta” dois dias seguidos de bloco de manhã, de tarde e de noite.
- E terça era pra ser o dia da família reunida na gandaia.  

Terça de carnaval, pela manhã:
- Laís, hoje o papai e a mamãe querem ir no bloquinho junto com vc... Quer ir com a gente?

- “Ih mãe, eu to meio resfriada... To com tosse, minha garganta ta doendo um pouco... Eu to também com um pouco de dor de cabeça..."
Diz ela com cara de “não vou nem a pau”, balançando a cabeça negativamente.

- Entendi... Você está indisposta né ?

- "Hum hum..."
Responde ela ainda com a cara de “neeeeeem  pensar” e o balançar de cabeça, pra dar ênfase. Ela é realmente muito expressiva.  Já disse isso pra vcs né?  

- Bom, nesse caso, você se incomoda de ficar em casa com a vovó de novo e deixar o pai e a mãe irem?

- Ah não mãe! Eu quero ficar com você!

- Poxa Laís, só tem um carnaval no ano filha! E a mamãe adora carnaval! Deixa eu ir vai! Por favor!!

- Quantos dias mais você vai ficar em casa?

- Amanhã vou ficar o dia todinho! Grudadinha em você! Eu vou te sufocar de tão grudada!

- Tá, então você pode ir!

;o)


Quesito enredo
Eu, wil e minha mãe, assistindo ao desfile da Mangueira* e comentando que achamos demasiado o espaço que o Bafo da Onça recebeu no desfile:
- Entendo que o Bafo fosse o rival histórico do Cacique de Ramos, mas daí a bateria vir metade índio -metade onça, a rainha de bateria idem, porta-bandeira idem, Alcione idem, ter um carro todo dedicado ao tema, e ainda mais umas 3 alas pintadas achei demais. Parece até que o homenageado é ao Bafo e não ao Cacique!

Eis que a criança, que até então parecia brincar distraidamente alheia a nossa conversa,  pula na frente da televisão:

- Deixa que eu explico pra vcs! O Cacique não é índio? Os índios não defendem a floresta? Então: ele é protetor da onça! Entenderam? Por isso que tem tanta onça na escola!

Alô Liesa: olho nessa menina. Será a melhor jurada do quesito enredo no carnaval de 2027!!

*Não, eu não “abandonei minha religião” e deixei a criança acordada na madruga assistindo desfile que eu não sou doida.  Lá em casa temos aquele recurso maravilhoso de gravar a programação e colocarmos pra assistir a hora que dá na telha.  Esse episódio foi à tarde, antes da apuração... 


26.1.12

Como desglamourizar uma princesa - em um ato.

No final do ano passado teve o aniversário de uma das amiguinhas mais queridas da Laís. O tema, foi “Rapunzel” com direito a presença “da própria” pra ficar paparicando a aniversariante. Semanas depois Laís está vestida com sua fantasia de Rapunzel, brincando tra-la-lá da silva quando de repente entristeceu e ficou amoadinha, sentada em um canto (não numa pose qualquer, diga-se de passagem, com pose de princesa, bem afrescalhada e afetada).

- Ué filha, o que foi que houve?...

- É que eu to triste porque a Rapunzel só gosta da Sophia e não gosta nem um pouco de mim...

- Como assim filha?

- É porque na festa ela só queria ficar com a Sophia...  (Diz a criança num fio de voz, sofrendo um monte.)

- Mas filha, era o aniversário dela. Foi a mãe dela que chamou a Rapunzel e pediu pra dar atenção pra ela...

- Mas eu queria que ela gostasse de mim também...

- Ela gosta filha. Onde já se viu uma princesa não gostar de outra princesa?

- Não gosta não... Ela nem queria ficar comigo... E eu tenho medo que no meu aniversário na minha festa, ela nem queira ficar comigo! (Diz a criança agora cruzando os braços e fazendo um bico de marreco. Os olhos começam a marejar e resolvo colocar um ponto final na história)

- Filha vou te contar uma coisa não muito legal...

- O que? (Diz a criança olhando um ponto fixo no chão sem nem me dar muita confiança)

- É que na verdade a Rapunzel ela é uma princesa que trabalha sabe? As mães das meninas contratam, contratar significar pagar dinheiro, sabe? As mães das meninas contratam ela pra ir nas festas e dar atenção só pra aniversariante. Ela foi PAGA pela Tia Michelle pra só ficar com a Sophia entende? Então, vc pode ficar tranqüila porque na SUA festa a mamãe vai CONTRATAR a Rapunzel para ela ficar só com vc. Se você quiser eu digo pra ela nem olhar pro lado só pra vc ok? E desfaz esse bico que essa Loura piolhenta não tá com essa moral toda não.

- Piolhenta? A Rapunzel tem piolho mãe?????? ( Diz a criança agora me dando atenção, com uma cara meio incrédula)

- Eu desconfio que sim... Com aquele cabelão todo os piolhos devem ter dito assim: “Oba! Olha esse clube aqui que maneiro rapaziada! Bora geral escorregar nesse tobogã, êêêê!” Aposto com você que tem um milhão de piolhos morando na cabeça dela!

- Eeeeeeeeeeeca!!! (Diz a criança agora já com um sorriso no rosto)

- Pois é... Eu se fosse vc não ia querer essa piolhenta na minha festa não! Porque vc não brinca com a sua fantasia da Sininho que inclusive é mais fresquinha que essa aí?

- Não! Vou colocar a da Mulher Maravilha! (Diz a criança já correndo escada acima e esquecendo aquela bobagem de Rapunzel)

Acho até que peguei leve. Podia ter dito que a Rapunzel era uma interesseira que só era amiga das meninas por dinheiro... E agora acho que teremos uma festa da Mulher Maravilha em setembro! ;o)

Olha a carinha dela de quem tá doida pra dar uma coçadinha....

24.1.12

Quem pode, pode...

Estávamos passando um fim de semana em um hotel fazenda em Paulo de Frontin. Esbarramos com uma turma tão animada, mas tão animada que inventaram de fazer um desnecessário (porém divertidíssimo) churrasco na piscina do hotel, para o qual o hotel ofereceu a infra e acompanhamentos (a carne e bebida foram obviamente por nossa conta).

Lá pelas tantas o assunto recai sobre a beleza de um menino, filho de uma das convivas:
- Esse menino vai destruir corações!
- É lindo demais da conta!
- Repara o sorriso...

Ele ouvia os comentários e fingia que não era com ele acanhado, como qualquer garoto de 9 anos ficaria (creio eu). Foi quando  resolvi, sem dó nem piedade,  piorar a situação dele, dando uma de tia velha ( daquelas que fazem de um tudo pra nos deixar sem graça e apertam  nossas bochechas e dão meias e pijamas de natal) :

- Felipe, você quer namorar comigo quando crescer? Eu abandono minha família, te dou casa comida e roupa lavada...

A Tia de verdade sai em defesa do moleque:

- Ah não Felipe! Ela é muito velha pra você! Diz que ela não pode namorar com vc não!

Ao que Laís ( Laís gente, minha filha de apenas 5, eu disse CINCO anos) retruca sem pestanejar (eu disse SEM PESTANEJAR, NA LATA):

- Mas eu posso!


Sorte dela que o pai estava pescando nessa hora. Aliás, sorte dele. Acho que teria deprimido se tivesse presenciado a cena...

Eu voltei... Agora pra ficar...

Antes de mais nada queria justificar minha mais prolongada ausência desde o dia em que comecei a escrever aqui. O fim de ano não foi mole pra ninguém ok, eu sei, mas pra mim não foi mole e meio.  Essa coisa de não ter recesso, mais a correria normal do fim do ano foi de “travurejar”*. Foi também um período de mudança real (não aquela coisa de promessa de ano novo de “vou começar uma dieta” etc). Encerrei um ciclo de dois anos e meio atendendo o mesmo cliente e iniciei em um novo trabalho, um novo e delicioso desafio sem intervalo pra pegar fôlego. Ufa!

Tenho é claro guardadas na manga algumas historinhas divertidas que se tivesse ânimo na ocasião já estariam aqui no blog faz tempo.

Aos poucos vou atualizando vocês...

* Procurei no dicionário e não achei esse termo. Acho que foi meu pai que inventou isso , pelo menos eu aprendi com ele.  Significa trincar os dentes ( aquele trincar de desespero sacam? ) no dicionário de "Gilbertez". 

1.11.11

Feche a boca e abra os braços

Ontem estava conversando com dois dos meus chefes sobre filmes, a caminho de uma reunião. Um deles comentou sobre um filme muito criticado "A árvore da vida". Em resumo o filme tem 3h e ele achou que a parte do meio faz o filme todo valer a pena, porque mostra como situações as vezes banais e cotidianas influenciam na formação da personalidade das crianças e em que tipo de adulto elas se tornaram quando crescerem. 

Aí hoje eu recebi um texto lindo do meu amigo querido Daniel Pels, que me lembrou a conversa de ontem. E me vi ali naquele texto,  em algumas daquelas situações. E pensei que a gente pode até se esforçar pra ser melhor a cada dia sem filhos, mas com eles se torna quase uma obrigação. E o texto se fez lição. Espero nunca esquecer (ou ao menos, lembrar com frequência).

Ok.Chega de blá-blá-blá: lê aí.

Uma amiga ligou com notícias perturbadoras: a filha solteira estava grávida.

Relatou a cena terrível ocorrida no momento em que a filha finalmente contou a ela e ao marido sobre a gravidez. Houve acusações e recriminações, variações sobre o tema "Como pôde fazer isso conosco?" Meu coração doeu por todos: pelos pais que se sentiam traídos e pela filha que se envolveu numa situação complicada como aquela. Será que eu poderia ajudar, servir de ponte entre as duas partes?

Fiquei tão arrasada com a situação que fiz o que faço – com alguma frequência – quando não consigo pensar com clareza: liguei para minha mãe. Ela me lembrou de algo que sempre a ouvi dizer. Imediatamente, escrevi um bilhete para minha amiga, compartilhando o conselho de minha mãe: "Quando uma criança está em apuros, feche a boca e abra os braços."

Tentei seguir o mesmo conselho na criação de meus filhos. Tendo tido cinco em seis anos, é claro que nem sempre conseguia. Tenho uma boca enorme e uma paciência minúscula.

Lembro-me de quando Kim, a mais velha, estava com quatro anos e derrubou o abajur de seu quarto. Depois de me certificar de que não estava machucada, me lancei numa invectiva sobre aquele abajur ser uma antiguidade, sobre estar em nossa família há três gerações, sobre ela precisar ter mais cuidado e como foi que aquilo tinha acontecido – e só então percebi o pavor estampado em seu rosto. Os olhos estavam arregalados, o lábio tremia. Então me lembrei das palavras de minha mãe. Parei no meio da frase e abri os braços.

Kim correu para eles dizendo:

– Desculpa... Desculpa – repetia, entre soluços. Nos sentamos em sua cama, abraçadas, nos embalando. Eu me sentia péssima por tê-la assustado e por fazê-la crer, até mesmo por um segundo, que aquele abajur era mais valioso para mim do que ela.

– Eu também sinto muito, Kim – disse quando ela se acalmou o bastante para conseguir me ouvir. - Gente é mais importante do que abajures. Ainda bem que você não se cortou.

Felizmente, ela me perdoou. O incidente do abajur não deixou marcas perenes. Mas o episódio me ensinou que é melhor segurar a língua do que tentar voltar atrás após um momento de fúria, medo, desapontamento ou frustração.

Quando meus filhos eram adolescentes – todos os cinco ao mesmo tempo – me deram inúmeros outros motivos para colocar a sabedoria de minha mãe em prática: problemas com amigos, o desejo de ser popular, não ter par para ir ao baile da escola, multas de trânsito, experimentos de ciência malsucedidos e ficar em recuperação. Confesso, sem pudores, que seguir o conselho de minha mãe não era a primeira coisa que me passava pela mente quando um professor ou diretor telefonava da escola. Depois de ir buscar o infrator da vez, a conversa do carro era, algumas vezes, ruidosa e unilateral.

Entretanto, nas ocasiões em que me lembrava da técnica de mamãe, eu não precisava voltar atrás no meu mordaz sarcasmo, me desculpar por suposições errôneas ou suspender castigos muito pouco razoáveis. É impressionante como a gente acaba sabendo muito mais da história e da motivação por trás dela quando está abraçando uma criança, mesmo uma criança num corpo adulto. Quando eu segurava a língua, acabava ouvindo meus filhos falarem de seus medos, de sua raiva, de culpas e arrependimentos. Não ficavam na defensiva porque eu não os estava acusando de coisa alguma. Podiam admitir que estavam errados sabendo que eram amados, apesar de tudo. Dava para trabalharmos com "o que você acha que devemos fazer agora", em vez de ficarmos presos a "como foi que a gente veio parar aqui?"

Meus filhos hoje estão crescidos, a maioria já constituiu a própria família. Um deles veio me ver há alguns meses e disse "Mãe, cometi uma idiotice..."

Depois de um abraço, nos sentamos à mesa da cozinha. Escutei e me limitei a assentir com a cabeça durante quase uma hora enquanto aquela criança maravilhosa passava o seu problema por uma peneira. Quando nos levantamos, recebi um abraço de urso que quase esmagou os meus pulmões.

– Obrigado, mãe. Sabia que você me ajudaria a resolver isto.

É incrível como pareço inteligente quando fecho a boca e abro os braços.
Diane C. Perrone
Histórias para aquecer o coração das mães
Jack Canfield, Mark Victor Hansen e outros



29.9.11

"Lição de latim para iniciantes" ou "Enriquecendo o vocabulário"

Meu pai é do tempo que se estudava Latim no colégio. Vira e mexe vinha ele com uma das suas "lições de Latim": - Meus filhos, vcs sabem o que é có- laborar?  ( ele falava assim mesmo com acento no ó, ele é Baiano ora essa) Có-laborar vem do latim, "labor", trabalho. Có-laborar = trabalhar com. trabalhar junto. Có-operar. Óperar com. Ajudar. Eu preciso de ajuda meus filhos!!

Daí que a mãe da criança está tipo assim "dando coice na própria sombra" ( expressão roubada também do vovô Beto, diga-se de passagem) , no auge da TPM psicopática-maníaco-homicida, falando com a criança pela 35º vez para entrar no banho para não se atrasar para escola, com toda delicadeza e fineza que lhe são possíveis nesse momento difícil da vida:

- CARACA-LAÍS-EU-NÃO-AGUENTO-MAIS-PÔRRA! TUDO-EU -TENHO-DE-REPETIR-MIL-VEZES! ACABEI-DE -ACORDAR -E - JÁ-TÔ- CANSADA! UM-DIA-EU-AINDA-INFARTO-DE-MANHÃ-CEDO! NEM -EU-ME-AGUENTO -MAIS- REPETINDO-TUDO-O-TEMPO-TODO! COLABORA-COMIGO-PELA-MOR-DE-DEUS!!

Ela revira os olhos suspira e fala:

- Tá, tá, tá mãe! Mas o que é colaborar?

A lição de latim de outrora me veio a mente mas atordoada de hormônios rebeldes como estava disse apenas:

- É A-J-U-D-A-R Laís!

- Então porque vc não diz "ajudar"? ( Diz ela com a mão na cintura e sacudindo os ombrinhos a la Queen Latifa).

- Porque eu quero que você tenha um bom vocabulário.

- Tá! Mas o que é vocabulário?( Diz ela com a mão na cintura, sacudindo os ombrinhos a la Queen Latifa e batendo o pezinho pra ajudar na indignação).

Rsrsrs + risos. Só minha filha mesmo pra fazer esse "exu caveira subir" tão rápido!